terça-feira, 30 de abril de 2013

Olhar poético

“Tell me your secrets”. - Coldplay 






              No olhar do poeta tudo no mundo se transforma. A laje é o cume de um castelo encantado, a menina é uma princesa imaculada, a lua é Deus a observar e cuidar de tudo.  Em cima da laje, de forma incomum, a menina pura de plumas tocou o trovador de tal maneira que o seu coração ficou confuso, inquieto, tímido, pensativo. Enquanto ele consertava as asas dela algo nele estava sendo restaurado. Ao abraçá-la todas as perguntas silenciaram, as respostas não mais importavam, ele não sentia nada, exceto o abraço reconfortante do seu anjo meigo. Bem que o abraço poderia ter sido eterno, assim ele ficaria em paz para sempre, porém foi efêmero como o mais lindo luar. A chuva surgiu, pequenas gotas de alívio caíram. Desceram do alto do palácio. Assentou-se no trono, próximo a princesa, e colocou-se a escrever versos mentalmente:


Na pessoa amada há mais valor do que em um harém.
Um dia o sujeito fica cansado de ser Don Juan e passa a ser Romeu,
A pessoa prefere sentimentos sinceros a corpos vazios sobre o seu.
Em Julieta há mais valor do que em todas as concubinas - a dançarem -


Juntas na vida e no além.  Medos, incertezas... Observo as estrelas
A reluzir e elas contam-me segredos ancestrais. Graças
A elas permito-me seguir adiante sem receio de errar.  Tagarelas,
Porém sábias, conseguem convencer-me que há várias desgraças

Na vida, mas a pior delas é cometer o mesmo erro

Diversas vezes. É preciso seguir em frente e ser feliz.
Não ficar se culpando por sujeiras do passado infeliz
Para não fazer do futuro promissor um enterro.

É necessário aos outros perdoar                          

E também nos desculpar pelas falhas
Que cometemos, assim se doar
Ao próximo será um gesto sem batalhas. 

É impossível ocultar para sempre a sensibilidade.
Há alguém especial que consegue ver além das aparências
E sabe apreciar o sabor do seu melhor lado com amabilidade.
Não se pode deixar de ser sensível mesmo com o avanço das ciências.

             Findou a escrita mental. Voltou a si. Passado o insight shakesperiano, em seguida,  o bardo pousou seu olhar nos olhos do querubim.  Palavras de felicidade encontrou neles, foi algo estranho, afinal onde já se viu ler versos raros e belos nos olhos de alguém? Como borboletas nas flores a menina angelical pousou suas mãos nas dele. O menestrel sentiu o anjo beijar sua alma ao ser tocado por ele. Decerto com o toque dos lábios dela nos seus sentiria a emoção de um amor adolescente, puro, ávido, inesquecível e tudo dentro dele seria belo como uma rosa. Ele encontraria o paraíso na terra, pois lugar melhor não existiria do que estar ao lado dela. (Será que a menina que voa sem se dar conta e anda por ser humilde sorriria desses versos?).
               É preciso ver as pessoas como se fosse cego, é preciso ver além das aparências e sentir a essência do outro. O poeta vê o mundo com os olhos fechados.  Ele enxerga-o com o seu coração. O custo por passar um tempo agradável com um anjo é sentir uma saudade incessante que devora o coração. - Abraça brandamente o anjo duas vezes para se despedir, duas vezes, pois quer ter a certeza que tudo aquilo que aconteceu foi real e porque se sentia bem por fazê-lo, a alma em silêncio gritou de felicidade em cada abraço tímido -. Toda a felicidade do mundo contida em um abraço foi o que ele encontrou naquela noite.

                                                                                                           Clayton Levi

Nenhum comentário:

Postar um comentário